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© 2017 by Inês Félix

Um dia de praia perfeito, por favor.

August 9, 2017

 

Sofro dos nervos com a falta de um sistema verdadeiramente prático para proteger a pele dos raios de sol. Como é possível estarmos nós no século XXI, a pensar em colonizar Marte, há uvas sem grainha, há impressoras 3D, temos inteligência artificial, temos robôs que fazem cirurgias, mas depois temos todos que sobreviver à cruzada de barrar creme de sol no corpo dos nossos filhos. Porque não haverá ainda um comprimidinho, um emplastro, um adesivo ou algo milagroso que nos liberte do esforço titânico de espalhar líquidos oleosos ou cremes duros como argila (como é o caso dos minerais) em corpos pequeninos ou maiorzinhos e que têm toda uma agenda muito mais interessante para cumprir.

 

Inventaram sim, sprays espectaculares que nos prometeram quase não ser necessária a passagem da mãozinha para espalhar, só se esqueceram de dizer que 95% do creme vai directamente para o espaço e apenas 5% aterra na pele. Este mês descrobri algo que me fez dar gritinhos de alegria no supermercado. Um creme em roll-on, da Nivea. Olha que ideia magnífica, pensei eu, é só espalhar como um repelente ou desodorizante e depois passar assim a mão ao de leve e está feito. Estava no Pingo Doce completamente rendida à novidade a pensar porque razão não havia roll-ons de todas as marcas e de todos os factores de protecção? Maravilhada mas desconfiada por não entender a razão disto não estar já espalhado mundialmente como uma das descobertas do século? Será fraquito? Comprei e gostei mas ainda assim continuo na minha busca incessante para descobrir a razão de ainda não haver por exemplo uma cápsulazinha que se tome e se fique protegido para um dia inteiro de praia? Ou um mês, por que não? Haveria comprimidinhos para protecção 15, 20, 30, 50+, não seria um sonho?  Não entendo como ainda não está solucionado este drama de todas as mães no verão, talvez o comprimido entrar na corrente sanguínea seja razão suficiente para não ser solução, mas oh céus, temos carros que conduzem sozinhos e depois andamos a espalhar creme como se ainda vivêssemos nos anos 70?

 

E sei que parece algo completamente banal e bastante superficial como preocupação para as nossas cabecinhas cheias de problemas sérios, mas levante a mão a mãe que não se passa da cabeça cada vez que tem que abrir o frasquinho do creme, espalhar uma quantidade normalmente superior à necessária, convencer a criança a aceitar estar quietinha durante 5 minutos com todo um mundo maravilhoso à sua espera, aceitar de bom grado a esfoliação inerente à situação, porque criança que é criança tem areia POR TODO O LADO, refilarem e fugirem quando pomos creme na sua zona do buço e compreender que têm que repetir este processo todo várias vezes ao dia. Eu cheguei ao cúmulo de inventar uma canção para manter as miúdas quietas mais uns segundos quando entravam em modo-colapso. Com sorriso nervoso e suor a escorrer, cantava "lá vêm os palhaços felizes a brincar, espalhando alegria e serpentinas no ar!"e repetia e repetia e repetia e elas milagrosamente ficavam sempre estarrecidas com o meu dom de cantar e petrificavam mais uns segundos. Podemos sempre pôr creme em casa, eu sei, e anulamos logo 95% dos problemas, mas sejamos honestos, quem tem essa maravilhosa presença de espírito ou poder de organização sempre?

 

E atire a primeira pedra a mãe que de vez em quando não manda tudo para o alto e pensa, deixa lá, hoje o UV nem parece assim tão alto, baixa lá essa ansiedade, deixa a criança em paz, vive a vida, respira fundo, relaxa porque estás de férias e pronto, basta ali uma passagenzinha nos ombros e nas bochechas e nariz ou mesmo zero de creme e vai filha! Vai viver a tua vida, vai em paz! Hoje vou ser uma mãe porreira e deixar-te sossegada e por favor não apanhes um escaldão e deites por água abaixo todo este meu relaxe, toda esta minha descontracção, hoje vou fechar os olhos a todas as obrigações, e ai do Universo que não colabore!

 

Só que depois ao final do dia a criança que ainda vinha meia baça da praia e da piscina e tu que vinhas numa espécie de núvem cor de rosa fofinha e zen e pensavas a vida é boa, nem sempre tens que ser uma nazi dos cremes e do sol e de repente a criança toma o seu banhinho e desaparece aquela película de poeira e só sobra isto: um tomate.

 

Um tomate arroxeado. E só os ombros se safaram caso tenhas tido a sorte de te ter passado pela mioleira que os ombros nunca se safam a um dia de praia e tenhas espalhado umas gotas nessa zona enquanto lias a Sábado. As bochechas estão vermelhas. E inchadas. E as dobradiças das pernas inchadas. E até o dorso do pé não se safou. E pronto, pegamos na bigorna de culpa que temos guardada debaixo do tapete para uma qualquer eventualidade de massacre de culpa e pomo-la aos ombros, como um colete, ainda pegamos em espinhos afiados e enfiamo-los no coração, dizemos para nós próprias que mãe que deixa o filho apanhar escaldão não merece viver e cobrimo-los de biafine e não estabelecemos mais contacto visual com eles até o vermelho se transformar num castanho e a pele cair toda e a partir desse dia juramos a pé juntos que nunca jamais em tempo algum a criança vai à varanda, ou à escola, ou andar de patins ou meter o pé na areia sem antes ter passado pela câmara de tortura do protector.

 

No meu caso as miúdas já põem cremes sozinhas mas ainda é uma luta para que a Rita que é mais clarinha se lembre de o fazer e normalmente dá sempre direito a uma pequena troca de galhardetes, de argumentos e contra-argumentos, é uma verdadeira luta de titãs e às vezes ganho eu outras vezes deixo-a ganhar e mentalizo-me para à noite pegar no coletezinho de aço maciço e afio os espinhos que vou cravar no meu coração, mas por algum motivo é essa a escolha que faço, talvez porque sou vencida pelo cansaço, talvez por eu própria ter uma relação bipolar com o sol.

 

Agora por favor, talvez pudéssemos pôr Marte de parte por uns tempos e concentrarmo-nos no que realmente interessa, o flagelo de mães nos areais de Portugal, à beira da descompensação, a pôr creme em condições tão precárias e por outro lado os miúdos que acabam com creme nas pestanas, nos dentinhos e com uma esfoliação potente até ao núcleo da derme. Um comprimido, umas gotas debaixo da língua, porque não uma vacina anual, um verniz ultra-potente, algo de uma toma só. Não é preguiça, é sobrevivência. Um movimento que criei sozinha e que ainda não tem seguidores assumidos, mas vamos lá tratar deste assunto com coragem, raça e determinação. Para adultos também. Porque já nos aconteceu a todos estarmos relaxadinhos na toalha, os nossos filhos já todos barrados, todo um dia de praia para desfrutar e o sol quentinho na pele, e a brisa refrescante e todo um nada para se fazer e de repente ouve-se uma vozinha de um adulto ao pé do nosso ouvido que nos pergunta isto e apenas isto: pões-me creme nas costas?

 

E a tua voz interior diz "não, preferia ser raptada por extraterrestres."

Mas por algum motivo sai: "Claro! Sem problema!"

E até massajas a pessoa. E odeias a pessoa.

E isto, tem-que-acabar.

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