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© 2017 by Inês Félix

Morri.

August 31, 2017

 

Começa de mansinho ainda em Julho.

 

As minhas miúdas deliram com a compra do material escolar. A seguir ao Natal e aniversário delas, acho que é o dia preferido do ano. Isto para terem noção do calibre da expectativa. Fazem A lista. E sempre que acrescentam um ponto na lista fazem questão de me informar. (Porquê, porquê) É o delírio e eu alimento a coisa, porque doidinha como sou por artigos de papelaria começo a imaginar que se calhar também preciso de marcadores fluorescentes mas em tons pastéis e post-its de várias dimensões e cores e lapizinhos bem afiados e uma panóplia de tentações. Mas o dia cria-me uma ansiedade, Jesus. Em Agosto continua o excitex, a lista ainda mais ampliada, o quando vamos mãe? tipo o "falta muito?" nas viagens. Ontem lá fomos. E de manhã as duas criaturas larocas e com olhos de bambi perguntaram-me "é mesmo hoje que vamos mãe?" E eu que gosto de as fazer sofrer com a imprevisibilidade da minha pessoa, digo: "não sei, não sei, nunca se sabe como é que corre o dia à mãe. Posso partir uma unha do dedão e ficar aborrecida e todo o mood ir por água abaixo, logo vemos quando eu chegar...." "Oh mãe!!!!"

 

Porque para comprarmos material escolar temos que estar no dia certo para todo o embate. É tipo ir aos 50% de desconto em brinquedos do continente, é ir para lá com luvas de boxe, olhos que não podem desviar para o não-essencial, e uma lista bem feita e não fugir 1 cm daquilo. É que basta 1 cm de desvio e é o fim, acabamos a nadar em supérfluos, loucas, olhos esgazeados e coração a bater depressa, serotoninas e dopaminas em ebulição, mas a seguir a Grande Ressaca.

 

Bom, não parti a unha do dedão e estava minimamente sã da cabeça e lá fomos nós. A Avó materna também quis ir. Como é possível? Já tem filhas adultas e mete-se neste filme por v o n t a d e  p r ó p r i a. Lindo. É o nosso bálsamo, porque nós as três no bate boca neste dia nunca funciona muito bem e portanto a Avó-zen no meio ajudou muito.

 

"Então onde querem ir?"

"Note, Primark e Staples, mãe."

Primeira extrassístole. Primark. Aquilo assusta-me pela dimensão, já várias vezes me perdi lá dentro, não conseguia encontrar a saída. E segundo assusta-me pelas tentações, eu saio de lá sempre com toucas de turco que não preciso, papel de embrulho que não preciso, chinelos que não preciso, caixinhas e frasquinhos transparentes para pôr cremes que não preciso, todo aquele corredor até às caixas é o inferno da criação de necessidades que até à hora não sabíamos que tinhamos. É ver-me pegar em tudo. Estrebuchei logo, que não ia lá. "Oh mãe mas há lá cadernos do Harry Potter!" Primeira paragem portanto foi na Primark, directas à zona de papelaria. Sempre magotes de pessoas e fones giros e caderninhos atraentes e lindos e velinhas e peguem nos cadernos e caixa connosco. Claro está que trouxe papel de embrulho. Aqueles rolos a 1,50 euros descontrolam-me sempre, mas consegui não sucumbir às toucas de turco com um diamante a fazer de botão porque pensei, este ano não vai haver piolhos por favor meu Deus, ajude-nos porque mais um ano lectivo a catar lêndeas e as miúdas a dormirem como estrunfes com touca turca na cabeça já chega. Mas de repente deu-me uma cena e um optimismo e pensei que ia começar as compras de Natal em Setembro! E saí de lá energizada com este pequeno pensamento (delírio porque isto não se vai concretizar, mas ainda assim, naquele momento eu achei que sim)

 

Suei um bocadinho nas costas mas seguimos então para a Note. E eu já só pensava como é que ia sobreviver à Staples. Aqui houve mais negas porque as coisas do Mr Wonderful são um espanto mas não dá para esticar. Deu para começar a perceber que não estou sozinha na luta. Comecei a reparar nas outras mães com olhar alucinado, braços cheios de cadernos, lápis HB e transferidores e micas. E meninas (não vi quase meninos, devem preferir delegar essa tarefa sem terem que estar presentes) a escolher tudo com grande perícia e felizes como se estivessem num spa. E todas precisam de um compasso novo porque o outro partiu-se. E todas precisam de uma régua nova de 20 cms porque a outra se partiu dentro da mochila. E todas precisam de borrachas branquinhas e querem pacotes com 5 porque uma não chega. E as pessoas estão tão alucinadas que vêem coisas caídas no chão e levantam o pé e passam por cima, porque estão programadas para comprar material escolar e nada mais vêem no seu campo de visão. Sobrevivemos à Note e a sentença foi que este ano os cadernos não eram giros e que mais valia irmos só à Staples. Oh céus, se alguém as tivesse avisado que os cadernos não eram giros. Bom, Staples aqui vamos nós. 

 

E pronto, toda a nata do material escolar estava ali enfiada. Todas as mães e avós. Todas em sofrimento mas a fingir que não. Mas eu topo-as porque somos todas iguais.

Então este ano a minha estratégia foi dar um cesto com rodas a cada uma e lançá-las aos leões, ide! "Ponham o que precisarem no cesto e eu no fim faço o escrutínio". "O quê, mãe?" "A censura, meninas. Vocês põem e eu tiro. Agora vão." E eu estive a ver coisinhas para mim. Enquanto era interpelada de vez em quando por elas, por causa da calculadora científica e os separadores (plástico ou papel?) e eu quero este caderno mas só há com quadradinhos e eu preciso dele para Geografia e tem que ter linhas e o corrector de fita e de caneta e as canetas para escrever, as para sublinhar, a régua de 10, de 20, de 30 cms, o papel cavalinho, a pasta para EV, o portfolio para inglês, e depois empancámos num tema fracturante entre mim e a Rita. A agenda. A Joana tem agenda e aquilo é uma preciosidade para ela, tudo cheio de desenhos feitos por ela e planeamentos ao mais alto detalhe e a Rita também gosta de ver mas depois não consegue manter a agenda viva mas ainda assim tinha comprado uma na primavera que dava até Dezembro, mas a criança viu uma gira e queria levar e parecia um bonequinho de jogo de computador virada contra uma parede a dar passos no mesmo sítio, agenda agenda agenda agenda. E eu parecia outro, nem pensar nem pensar nem pensar nem pensar. E a Joana como adora meter-se nos conflitos que não lhe dizem respeito ainda atirou mais achas para a fogueira "oh mãe ela não usa agenda, eu nem percebo como é que ainda lhe compras agendas!!" e tanta coisa mais e todo um circo montado à volta da agenda. O pingo na testa a escorrer e achei que estava na hora de ir para a caixa. E fugir para casa. Agenda ficou para trás. Ainda mando :)

 

2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, 7ª, 8ª, 9ª e 10ª extrassístole do dia, o pagamento.

 

Agora tenho um ano de descanso, apenas interrompido por necessidades pontuais que basicamente acontecem com mais frequência do que eu gostaria. Mas dá gosto vê-las depois em casa tão felizes a organizarem os cadernos e estojo e mochila e aquilo é mesmo felicidade, estão de férias e querem começar a escola só para poderem escrever nos cadernos novos. Isto dura um dia claro, mas é giro vê-las tão motivadas. Mas digamos que preferia enfiar-me numa banheira cheia de gelo enquanto me mostravam panquecas com chocolate quente e não me deixavam comer mas somos mães, aguentamos tudo, até o Regresso às aulas!

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