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© 2017 by Inês Félix

Uma aventura a não repetir

September 10, 2018

 

 

 

Ontem participei no Granfondo Santarém, na prova Mediofondo, que seriam 100 kms ali pelo Ribatejo com o acumulado semelhante à prova de Cascais (900d+), pelo que pensei que seria um bom treino para desmistificar a distância e a altimetria. Nunca tinha pedalado mais do que 60 kms e achei que era a altura certa. Lá fui com mais companheiras do triatlo, nervosa como uma gelatina mas focada em conseguir, ao meu ritmo, fazer a prova.

 

Mal dão o tiro de partida, o pessoal quase desaparece, eu que ainda sou bastante patareca por isso tenho que fazer tudo com muita calma fiquei para trás, o resto já lá ia à frente na bisga e eu ainda a tentar encaixar os pedais e equilibrar-me e essas coisas todas. Nisto eu e mais duas companheiras de luta que tinhamos combinado ir juntas, ficámos mais para trás, juntamente com um paratleta, as motas de apoio ou vassouras o que quer que seja que deviam ser, passam por nós e avançam e acho que desde o km2 que nunca mais os vi. Últimos atletas ficámos completamente abandonados à nossa sorte, incluíndo o paratleta (que acabou por desistir também porque tal como nós se perdeu, acabou parado numa estrada nacional sem saber para onde ir e sem qualquer apoio, senão do seu acompanhante).

 

Salta a corrente da Daniela, paramos um bocadinho mas logo avançamos e aqui começam os problemas, já estávamos longe do resto dos atletas e de qualquer apoio, até em semáforos vermelhos no centro de Santarém tivemos que parar como se não estivéssemos em prova. Sinalização só via umas placas amarelas da Podium e foram essas que segui. Num piso empedrado demasiado longo que me faz perder a presença de espírito com tanta tremideira e desacelerar bastante, perdi de vista a Daniela e a Alex. Cheguei a um cruzamento onde não estava vivalma e aqui sim, vi duas setas diferentes, as da Podium a mandar para a esquerda e uma outra parecida mas muito mais pequena, amarela também, apenas com uma seta a mandar para a direita. Segui a pequena, não sei bem porquê mas a minha intuição disse-me para seguir essa. Encontro um senhor na subida que ia a pé e perguntei-lhe se tinha visto ciclistas a passar por ali. Ele disse que não e disse que deveria ser para ir em direcção à ponte, ou seja, deveria ter seguido a seta da Podium. Dei meia volta, passei o rio Tejo com uma vista deslumbrante mas fiquei demasiado tempo sem ver sinalização. Nesta altura já ia tão irritada e com um feeling gigantesco que estava perdida. Pedalei mais um pouco e chego a Alpiarça, mais um cruzamento sem sinalização e decidi ligar para a organização. Não tinha os telefones das minhas companheiras de ritmo que entretanto também se perderam e julgavam que eu estava bem e eu julgava o mesmo delas, e nunca mais nos vimos. Da organização disseram-me que já não estava em prova, que estava perdida, que andava a seguir as setas da Volta a Portugal (what??) e recomendaram-me que fosse até à Chamusca e ali esperasse pelos primeiros atletas que chegassem e os seguisse. Sabia lá eu onde era a Chamusca, a prova dá o track mas eu como iniciada não tenho nada dessas coisas e penso que não podem contar que todos os atletas tenham, têm sim que sinalizar como deve ser. Não sou conhecedora do Ribatejo e senti-me completamente perdida ali naquelas estradas cheias de campos de milho.

 

Lá encontrei umas pessoas que me explicaram como ir ter à Chamusca. Ia tão passada da minha tola, tão fula com tudo, tinha-me levantado às 6 da manhã e pago uma prova e agora estava ali completamente por minha conta? Ah porque me disseram logo que fazendo o percurso até Chamusca e o resto não iria ter abastecimentos. Eu tinha alguns géis e tinha dois bidons com água e isotónico e achei que me iria aguentar. Entretanto estava tão determinada em fazer uma distância longa que depois de me ter dado vontade de chorar ali no meio do nada com carros a passar por mim a alta velocidade, lá me acalmei e pensei: vais fazer isto sim senhora, vais inventar um Mediofondo à Félix e vais fazer no mínimo 90 kms. Só depois vais para casa. A raiva faz uma pessoa reagir e então sem saber bem onde estava, fui-me tentando orientar e arranjando pontos de referência e repetindo estradas e aos 60kms decidi então ir à Chamusca.

 

Estavam 30 graus e há 1 hora que já não tinha água, não via vivalma, excepto carros e não via qualquer café, nada. Na ida para a Chamusca já seca até ao tutano, lá cheguei a uma rotunda onde vi ciclistas a passar. Estava bem, uff. Havia um restaurante, parei a bike, pedi a dois senhores muito simpáticos que me ficaram a guardar a bike, entrei no restaurante vazio e fantasma, não vi uma única pessoa, fui à wc enchi os bidons e segui caminho. Cheguei à meta com 95 kms feitos! Danada mas admirada com a minha resiliência. Era muito importante este treino por causa da prova, porque se não fosse isso acho que teria ido embora para casa, não teria valido o esforço.

 

Fiz 4h20 de tempo líquido, medido com o telefone, média fraquinha para o pedal que preciso para fazer Cascais no tempo limite. Ao todo com telefonemas e paragens para perceber onde estava fiz quase 5h e passaram-me um lindo diploma com esse tempo, a dizer que a prova foi concluída, média de 28km/h pois mediram como se tivesse feito o Grandfondo e nem sei o que dizer, isto é tudo absolutamente sórdido. Não tive medalha, eu não a ia receber pois não fiz a prova, mas também ninguém me veio dar quando passei a meta. Fiquei super desiludida pelo nível de abandono dos últimos atletas, acho de uma falta de consideração pelas pessoas que têm ritmos inferiores aos da maioria mas que também merecem tentar novos desafios. Se já me sinto uma bebé neste meio ontem então senti-me completamente invisível. Mas nada me tira a força que precisei para fazer o treino que fiz.

 

Depois a cereja no topo do bolo, a meta era em Almeirim e a partida tinha sido em Santarém, ou seja tinhamos que pedalar esta distância depois de 100kms nas pernas, ou mais no caso dos atletas do Grandfondo. Lá segui eu com um grupo de ciclistas que carinhosamente me acolheram e com alguns enganos de caminho naturais para quem não é dali, uma queda minha ainda no meio da terra batida por não ter conseguido desencaixar um dos pés, duas subidas chatas naquela fase do campeonato foram mais 15 kms nas pernas. Cheguei ao meu carrinho derreada. Ao todo foram 110 kms. No meio da aberração de prova que foi, fiquei feliz! Cheia de dores (mãos, rabo, pescoço, ombros, não sei o que está pior...), mas já sei que consigo ir um pouco mais além do que me julgava capaz. Esta prova nunca mais, mas Cascais espera por mim!

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